Ainda dá tempo

2 de março de 2017

Foto: We Heart It
Sou filha de uma geração que vive com pressa. Muito cedo desenvolvi depressão, ansiedade patológica e síndrome do pânico. Tenho várias amigas na mesma situação. Todas nós somos filhas de uma sociedade que exige que tenhamos carro e casa própria, além de sermos mulheres lindas, boas mães, esposas incríveis, profissionais exemplares. É preciso também ter viajado o mundo para ser feliz e ter tempo para chegar até o doutorado – porque só somos bem sucedidas se falarmos 3 idiomas diferentes, tivermos vários diplomas e histórias para contar. Tudo isso antes dos 30.

Eu não sou a primeira a expor essa ferida social que suga a alma de nós, jovens, a troco de absolutamente nada (ou melhor, a troco de uma roda de conversa numa festa de família onde podemos dizer “venci na vida” – o que quer que isso signifique). Não serei a última jovem à ir trabalhar chorando porque quer resultados rápidos feito uma criança mimada que não consegue esperar pelo presente de natal.

Nós, todos nós, somos filhos da ansiedade. Do imediatismo. De uma geração anterior e frustrada que depositou em nós toda expectativa do mundo. Queremos tudo, absolutamente tudo, para ontem. E, se não for assim, essa mesma sociedade nos julga um fracasso, um bando de jovens desocupados que não querem crescer na vida.

Não nos ensinaram que temos todo o tempo do mundo. Nos falaram que a vida só é boa se acontecer agora do jeito mais incrível que tem que ser – e foda-se nossas vontades, classe social e perdoem o palavrão. Me disseram um dia que eu só seria alguém na vida se fosse rica. Se arrumasse um bom marido. Se fosse mãe. Se comprasse minha própria casa com meu esforço. Se tivesse um diploma.

Conseguiram de uma maneira única calar a nossa voz, encher as universidades de jovens que não sabem o que querem da vida e criaram pessoas desesperadas e com medo do futuro. Porque todas essas expectativas caíram sobre as nossas costas. Doem agora de uma maneira terrível, porque simplesmente não conseguimos sempre nos livrar das amarras e das expectativas alheias.

Não me venha com discursos “namastê” e sobre ser feliz largando tudo para começar do zero – eu fiz isso e sequer me encontrei ainda. Infelizmente, não nos sobrou muitas opções. Repito para mim (e para as várias amigas na mesma situação) que nada como um dia após o outro. É que a mesma sociedade que fez isso com a gente sequer foi capaz de arrumar desculpa melhor para nos fazer viver sob tanta pressão.

Ao mesmo tempo que queremos tudo, não queremos também. Ao mesmo tempo que nossas costas doem, nossos pés já estão cansados. E eu só espero que um dia, daqui a 50 ou 60 anos, meus netos não façam as mesmas reclamações, porque além de filhos de uma geração frustrada, seremos avós de uma geração falida.

1 comentários:

  1. Oi, Dreisse
    Cheguei aqui por indicação da Aline (Monteiro).
    Quanta lucidez em seu texto... e eu, que sou da geração da transição... que tenho a "educação" da década de 80 e a "vivência" do século XXI, fico como?
    3 graduações e um mestrado, duas mudanças drásticas de profissão... só está me faltando um ano sabático de mochila pelo mundo. (Mas tenho pais idosos e no momento isso é impossível.)Mas nas rodas de conversa de família eu estou no banco dos loosers: desempregada, autônoma (fotografia) e sem possibilidade de me aposentar (mesmo antes da maldita reforma da previdência) Enfim... vamos viver tudo que há pra viver... se der!
    Beijo!

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Obrigada!