Pode entrar, meu bem

23 de abril de 2015

Imagem: We heart it
Pode entrar, mas não repara na bagunça. Pode vir, mas promete que não vai reparar na xicara de café marcada por outras bocas? Prometo não servir no mesmo copo para você. É que, você sabe, todos nós temos um passado e eu bem tive o meu. Quer a gente goste ou não.

Você pode entrar. Deixo até colocar o pé no sofá. Mas tira o sapato logo na entrada que é para não marcar demais. Venha, por favor, de pés descalços, pisadas macias. Gosto assim. Não vou te oferecer água gelada que é para não marcar a mesa de madeira na hora que você repousar o copo. Vou te dar um pouco de chocolate quente numa xícara bem linda para que entenda toda a minha doçura. Meu excesso de açúcar não vai atrapalhar, prometo.

Pode entrar, mas dá uma conferida se a sua roupa está inteira, o coração intacto e a mente aberta. Não suporto mais ser a cura de ferida alheia e ser largada após o processo de cicatrização.Você pode entrar, ficar à vontade. Mas vê se não fica cutucando aquela feridinha ali do sofá, você promete? Visitas passadas marcaram a sala de estar da minha vida e eu não consegui esquecer essa marquinha. Nem tento mais concertar, porque descobri que nessas vidas poucas coisas do coração têm concerto.

Você pode entrar, viu? Mas não repara na bagunça não. Você chegou de surpresa, não tive tempo de arrumar a casa. A baguncinha é por conta das surpresas da vida. Promete para mim que, se você estiver mesmo afim, você me ajuda a colocar tudo no lugar? Prometo tentar te ajudar também. Você pode entrar. Meu coração está aberto e ansioso para te receber. Só não repara demais, por favor.

Eu sei, mas não devia

21 de abril de 2015

Imagem: We Heart It
(Texto de Marina Colasanti, escrito em 1972)

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.