Devaneios loucos

10 de março de 2015

Imagem: We Heart It
Chorei dez vezes. Seguidas. Fugi por tanto tempo. Dei volta nos quarteirões, andei esquinas procurando alguém que nunca encontrei e percorri lugares buscando algo que eu nuca soube o que. Quer dizer, agora eu sei.

Meu processo de achado e fuga nunca se resumiu a outra pessoa. Nunca se resumiu a ex-maridos, ex-amantes, ex-amigos ou qualquer pessoa que tenha passado pela minha vida e eu tenha deixado para trás. Meu processo de fuga e encontro se resume em mim.

Fugi a vida inteira de uma pessoa que eu não fazia a menor questão de conhecer. Percorri ruas vazias buscando encontrar nas pessoas sensações e sentimentos que eu não queria procurar em mim.

Comecei a enxergar que meu cansaço repentino das pessoas não era culpa nelas. Não era culpa do universo. Meu cansaço repentino das pessoas era fruto do meu cansaço interno. Da culpa que sentia, sem saber, por não gostar de mim mesma. Dos sentimentos que não quis descobrir. Dos nervos a flor da pele quando eu era obrigada a ficar sozinha. Do buraco imenso que todo mundo sempre foi capaz de deixar em mim.

Esse buraco era meu. Só meu. Minhas fugas sagazes e de forma rápida eram a minha maneira de externar que aquela pessoa ou coisa não me completava mais. Meu erro foi querer ser completa com alguém. Ou com algo. Qualquer coisa que te permita por um segundo não pensar em si mesmo. Qualquer coisa que te faça esquecer que você é vazia. Porque você não se preenche. Você não se preenche, entende? Eu ainda me sinto vazia. Ou cheia de mim. Não sei ainda.

Um dia você senta na cama e chora. Porque sabe que esvaziou. Ou que nunca esteve cheia. Eu nunca estive, assumo. E coloquei mil coisas no lugar como forma de tampar esses buracos ínfimos que a vida da gente tem. E sabe que trabalho é uma ótima desculpa? Trabalho, festa, namorado novo. Tudo. Qualquer coisa é melhor do que encontrar com você mesmo numa noite de sexta ou segunda. Porque tanto faz que dia é. A solidão da alma não escolhe dia, mas a sorte é que nas segundas você consegue fingir que está infeliz pelo simples fato de ser segunda. E nas sextas é hora de abrir o sorriso e ir viver a vida linda que você tem. Aquela mesma que você passa a semana inteira idealizando para não ter que perceber que te falta algo. Te falta algo, amiga.

Caçando metades, me tornei meia. Meia pessoa, meia mulher, meia filha, meia profissional, meia namorada. A outra parte não era minha. A outra parte era o buraco de enfiar coisas que nunca me acrescentariam em nada, me cansariam em breve e eu largaria no canto. A outra parte nunca estava completa porque nunca era da responsabilidade das pessoas ou coisas completar aquilo

A pior coisa que se pode fazer da vida é não assumir a sua responsabilidade. Porque, sabe, é tão mais fácil colocar a culpa no outro. Tão melhor não viver com a dor de não se completar. Porque, claro, a culpa é do namorado que não me dá tempo. Da faculdade que toma meu tempo. Dos filhos chatos que não me deixam cuidar de mim. Da amiga que só sabe falar sobre si. A culpa nunca é minha. Nem sua, amiga.

Das piores dores, não se bastar é a que mais dói. Cair na real depois de ver que nada mais resolve dói dobrado, acredite. Chorar vendo o comercial de margarina porque você além de sozinha é refém de um sentimento terrível é doloroso. Sair desse processo, arde.

Um dia eu virei a esquine e dei de cara comigo. Sentada no chão, chorando sem saber muito bem o que eu fazia. Me sacudi umas três vezes até ver que era eu mesma. E metade de mim não estava lá. Nem ouse a me perguntar o que é essa outra metade, porque eu não sei. Nunca soube.

Gente vazia não se conhece para saber o que falta. Gente vazia transborda sofrimento porque, para tudo, sofre a metade que está faltando. Gente vazia não merece céu. Não merece amor. Não merece trabalho bom nem amigo legal que é para não jogar expectativa demais em gente que não é dele. Gente vazia se acha dono de todo mundo. Gente vazia dorme e sonha com qualquer coisa que a leve de encontro para si. E acorda no meio da noite dizendo que tem insônia.

2 comentários:

  1. Sua linda <3 apaixonada por seus textos!

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  2. É dolorido se REconhecer depois de ler esse texto.
    Porém, profundo e verdadeiro.
    Sábias palavras. Estou digerindo até agora.
    Bianca Veríssimo, que muito adimira sua transparência.

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Obrigada!