Sobre sua ida sem volta

2 de outubro de 2014

Foto: Reprodução/We heart it
Vou te chamar de Paulo. Acho que combina com os olhos azuis e os dois metros de altura que trombaram em mim enquanto eu entrava no ônibus. Acho que combina com o rapaz loiro que deu um sorriso e me cumprimentou como se eu fosse uma velha conhecida depois da gente ter andado de ônibus juntos umas duas ou três vezes. Vou te chamar de Paulo, porque você não me disse seu nome. Vou te chamar de Paulo, porque sumiu depois de dois ou três dias pegando o mesmo ônibus junto comigo e sorrindo toda vez que olhava para o meu rosto. Vou te chamar de Paulo, querido. Porque, como muitos, você armou o circo, fez a festa e foi embora. Sem ao menos se apresentar.

Eu pensei que te encontraria no ponto de ônibus durante toda aquela semana que você não apareceu. Imaginei você me esperando no desembarque, porque você viu que todos aqueles dias a gente desceu junto naquele ponto de ônibus sem nem trocar uma palavra. Imaginei que tivesse percebido que estou no mesmo lugar, na mesma hora, todos os dias. E, diferentemente de você, eu não deixei de aparecer simplesmente.

Da última vez que a gente se encontrou, você apareceu de mala e olhou para mim como se estivesse despedindo. Talvez fosse um turista. Não sei. Talvez alguém perdido vagando de cidade em cidade. Andando de coração em coração. Mas eu queria tanto te encontrar de novo, que não desconfiei que seu sorriso – o mais forte depois de todos aqueles dias – era na verdade uma despedida singela para uma pessoa que nem sequer pode te conhecer.

Paulo, eu queria ter descoberto o seu nome de verdade. Queria ter descoberto que tipo de música escuta, quais filmes assiste e se é tão apegado a livros quanto eu.  Queria que tivesse contado se era mesmo um turista ou se apenas procurava um coração para se abrigar. Se você tivesse se apresentado, eu teria perguntado porque é que você não fica aqui de uma vez. Você podia arrumar a casa, enquanto organizava o coração para você.

Mas, Paulo, você se foi, não é? Eu continuo parando todos os dias, no mesmo lugar e na mesma hora. Continuo fazendo o mesmo trajeto de sempre. Na sua volta, eu ainda estarei lá. Ainda posso te chamar de Paulo? 

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