Quase socorro

30 de maio de 2014


Levantar da cama era quase um sacrifício. Quase. O frio lá fora a incomodava muito, mas o coração quase gelando era o que a preocupava ainda mais. Transbordava sem dizer, reclamava sem necessariamente falar.  Quem sabia, se recusava a ajudar e ela optava por quase sempre a ficar calada.

A garganta ardia toda vez que o fim da tarde chegava. O estômago doía regularmente e sempre que percebia, sentia seu corpo gritar. Ela sabia que a dor nas costas era exatamente porque os sentimentos andavam pesados demais para ela suportar. As lágrimas escorriam sem ela ao menos perceber e aqueles calafrios eram quase que insuportáveis.

Gritar por ajuda nunca foi seu forte. Falava como podia, do jeito que queria. Quando o tempo deixou de existir, a leveza desapareceu e o limite foi chegando cada vez mais perto. Ela sabia que ainda não tinha chegado no seu máximo e isso é o que mais a atormenta: saber que ainda pode existir muito mais.

Quando já não conseguia completar uma frase sem conseguir pensar em outra coisa, percebeu que o cansaço estava além do que deveria. De manhã, olhou discretamente para os calmantes ao lado da cama e jamais imaginou que era aquilo que tomaria naquela altura da vida. Acordou para mais um dia. Respirou fundo, agradeceu pela chance de recomeçar e (sobre)viveu. 

Meias e metades

21 de maio de 2014


Você deveria dar meia volta e ir embora antes que eu queira ainda mais que você fique. Porque volta e meia seu meio fantasma me assombra e domina meu coração por inteiro. Inteira ainda estou depois de suas idas e vindas. Meu amor nunca chegou na metade. E seu sempre me desdobrei para ocupar todo espaço da cama que você deixou. 

Você nunca vem por completo. Nunca veio. Temo nunca vir. Sua presença é sempre pela metade e seus passos nunca deixam marcas. Todo cuidado do mundo para não ferir alguém que por contra própria se feriu sozinha. Gosto de tomar para mim as responsabilidades da sua ausência de marcas. De meios desejos. Meios beijos. Meios corpos. 

Largue essas meias, meu bem. Venha de pés descalços, alma nua e coração brando. Tenho o amor que precisa e os espaços para que possa marcar seus pés. O calor na medida certa para te aquecer nesse inverno. A paz necessária para te livrar do inferno. Sem medos desnecessários. Sem metades interrompidas. Sem meias, sem voltas. 

Amor próprio

19 de maio de 2014



Se apaixonou. Beijou como nunca. Sofreu como nunca. Amou como sempre. Soprou a dor para longe. Tirou o pó das coisas velhas. Sorriu para vida. Sorriu para si mesma. Viveu. Sem se arrepender jamais. E descobriu que o maior amor que existe é a que temos por nós mesmos. E fim.