Última partida - parte I

7 de janeiro de 2013



Não se preocupe em entender agora. Essa é só uma história como qualquer outra. O mesmo enredo para diversas versões de um só sofrimento.

Eu

Por amar com desamor. Por esperar que eu suprisse uma falta que nem você daria conta. Por sentir pela metade e por deixar que eu revestisse do calor sozinha. Porque eu sempre te ensinei a voar, mas jamais pensei que um dia roubaria minhas asas e voaria para longe de mim. A teoria que me pedia para manter a gaiola aberta nunca funcionou com a gente e você aprendeu a destruir grades. Você deveria ter me devolvido a cópia da chave, meu bem, mas a deu para outra.

Aquele dia o trajeto do ônibus foi um pouco maior e eu via seu reflexo pela janela sempre que a lágrima alcançava o canto do meu olho. Aquelas 20 horas de ônibus nunca foram nada quando a minha chegada era a sua espera e o meu adeus era uma promessa de até logo. Eu sempre odiei as montanhas que separavam nós dois. E eu havia rasgado sua foto, mas seu rosto jamais sairia da minha mente.

Eu ainda não acreditava. Você havia perguntado como eu ficaria minutos depois, me levou à rodoviária naquela tarde fria de outono, enquanto sussurrava “sua vida vai continuar”. Não teria sido crueldade arrumar outra no momento em que eu mais estive atrelada a você? Não foi cruel dizer que havia encontrado alguém que lhe deu certezas que eu jamais seria capaz de dar?

Eu peguei a passagem da sua mão certa de que era a última vez que eu te tinha assim. A partir de agora, você teria alguém para suprir suas loucuras de uma sexta à noite enquanto meus livros voltariam a fazer parte da minha rotina. Entrei naquele ônibus sem olhar para trás. Dei passos lentos em direção à poltrona 22 – o exato número do nosso aniversário de namoro. Por sorte, era uma janela que não coincidia com o lado em que você estava na rodoviária. Ainda assim, fiz questão de procurar se ainda estaria lá assistindo minha última partida. Mas não, você já tinha ido ao encontro dela. Ajeitei, então, minha mala, arrumei o travesseiro que você havia me dado e sentei virada para a janela. Eu precisava de ar e estava certa de que o vento ajudaria a me esvaziar de você. A senhora que sentou ao meu lado percebeu como eu estava e por um instante achei que questionaria algo, mas se limitou a perguntar se eu estava esperando alguém. “Não, minha querida. Tira essa espera de mim, pelo amor de Deus.” – foi a suplica que eu queria fazer.

Quando o ônibus saiu daquele lugar, eu realmente percebi o que estava acontecendo. Dei uma olhada rápida no estacionamento e percebi que você de fato já havia ido. Pode ir, meu bem. Te deixo, me deixo. Nos deixo. Só leva de mim essa sensação.

O fim doeu. E saber que o meu fim representava um novo início para você me incomodava ainda mais.
Uma, duas, três paradas. Eu já estava a 6 horas de você e ainda a 12 horas do meu reencontro. Era o momento de me aproveitar. Tampar as feridas que um dia vocês deixaram. Como funciona a sensibilidade de uma mulher que se deixar levar já sabendo que existe outra na vida dele? Será que essa já foi deixada em alguma caixa de brinquedo como presente do natal passado simplesmente porque o outro natal já chegou?

Na quarta parada, já sem lágrimas, mas ainda com muita vontade de chorar, a senhora desceu me deixando finalmente sozinha. Ela olhou para trás com os mesmo olhos de piedade de alguém que um dia implorou o amor de alguém. Ela me entendia, eu sabia. Na quinta parada, eu comemorei. Estava a 2 horas de mim e a muitas de um passado que eu deveria esquecer. “Por onde anda aquele meu amigo?” – pensei. Meu bem, você me conhece. Sabe dos meus métodos para tampar espaços. Sabe que esse vazio que você deixou só será preenchido depois que outro bagunçar os meus lençóis.

Sua mensagem perguntando se eu já estava em casa chegou e eu fui sutil quando disse que não. Mentira! Só queria mostrar que, além de você, eu também teria algo para fazer quando voltasse para essas montanhas que agora me protegiam de você, mesmo que fosse de madrugada. Quando o ônibus estacionou, eu suspirei certa de que agora era meu novo começo. Peguei minha bolsa, olhei para o travesseiro que manteve minha cabeça confortável enquanto minha mente explodia e resolvi deixá-lo ali.  Com sorte, ele conforta o coração de alguém que não o meu. Não preciso do seu conforto. Preciso de você, mas na falta, deitarei em outros ombros a procura do seu, mas enquanto isso aproveito ainda do seu casaco velho jogado no meu quarto que ainda é capaz de me aquecer.

3 comentários:

  1. Me senti fascinada pelo enredo, com certeza não perderei a 2 parte.

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  2. Amei o texto, com certeza estarei ansiosa esperando a parte 2.Esse é exatamente o texto que me fascina, o velho drama amoroso... Acho que "sofro" com textos como este esperando não sofrer na vida real! Beijos e obrigada pelo texto, uma boa leitura não faz mal a ninguém ;)

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  3. Li o 2º antes do 1º.. mas este me fascinou ainda mais.

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Obrigada!