Última partida - parte III

30 de janeiro de 2013



Ele

Queria poder ainda te chamar de minha querida, mas sinto que não posso mais. Foi uma escolha árdua, você sabe. Não te quis ver sofrer e tenho certeza que jamais entenderá meus motivos, mas eu estava confuso. Eu sempre soube que essa distância nunca daria certo mesmo. Aquelas promessas de reencontro, de até logo que nunca se cumpriram, essa sua mania de me esconder do mundo mesmo me garantindo que me amava. Eu nunca entendi.

E então, ela apareceu. Sem mais, nem menos. Em uma tarde qualquer naquele shopping que você tanto gosta. Nunca foi minha intenção, mas, sabe, havia um vazio e eu tinha uma necessidade quase que imediata da suprir com a falta que você me fazia. Não foi certo colocar outra no seu lugar, mas entenda que eu já não estava certo do que você afinal queria. Hora sim, hora talvez. Eu tinha encontrado alguém disposta a fazer por mim tudo que quis fazer por você um dia e você nunca me permitiu.

Sei que não deve estar sendo fácil, mas sua vida irá continuar. O meu recomeço chegou um pouco mais cedo, mas ele logo apareceu. O seu chegará também. Te conheço e sei que não demorará a encontrar outro para preencher o vazio que eu deixei nos seus lençóis. E quanto ao vazio do seu coração, esse você mesma preenche. Sei que é capaz.

Aquela noite, em meu apartamento, foi um tanto dolorosa. Eu ainda tinha dúvidas – e que ela nunca me escute dizer isso. Eu ainda gosto de você e o carinho que eu sinto, mulher nenhuma vai ser capaz de tirar. Acredite. Só que ele já não é mais o suficiente para me manter ligado a você. Não foi minha intenção te abandonar sozinha ali, mas eu sabia que precisava de tempo. E eu não podia permanecer ao seu lado sabendo que ódio era a única coisa que define o que você sentiu por mim àquela hora. Eu fui covarde, eu sei.

Não quero ser muito longo em minha despedida. Nunca fui bom com isso e eu estou sofrendo, caso não acredite. No pior dos casos, ela percebe cada detalhe disso e fica confusa toda vez que eu toco em seu nome. Eu sei que estou me confundindo e, sem querer iludir, talvez eu volte só para te dar um oi quando eu aparecer aí nesse estado que agora tem parte do meu passado. Essa montanhas que pareciam tão românticas toda vez que estávamos longes, serão responsáveis agora por te fazer esquecer e te proteger de cada lembrança difícil que eu deixo agora em você.

Odeio ser romântico, mas eu acho que te devo desculpas. Me perdoa por ter encontrado outra. Me perdoa por ter sido fraco e ter deixado que outro alguém, que não você, ocupasse minha cama e meu coração. Me perdoa pelas lágrimas que te fiz derramar e me perdoa pela crueldade. Você não deveria ter me posto em uma gaiola. Eu deveria ter escolhido ficar por si só, mas não. Sinto muito, mas chegou a minha hora de voar. 

Última partida - parte II

10 de janeiro de 2013



Ela

Eu sei que foi cruel. Não sei como deixamos tudo chegar a esse ponto, mas entenda que ele nunca te quis ver sofrer. Ele te amou, minha querida. Mas por acaso do destino, nós nos cruzamos no shopping justo no dia em que ele comprava o seu presente. Nunca foi minha intenção destruir nada do que vocês estavam vivendo, mas ele me garantiu que tudo já estava destruído o suficiente. Eu só dei forças para que ele abandonasse uma história que o fazia infeliz.

Eu não te devo desculpas.

Naquela tarde de outono, eu deixei que ele te levasse à rodoviária e confesso: estive em meu carro, estacionado logo ao lado do dele, durante todo o tempo. Eu merecia saber quem era, afinal, a garota que roubou sorrisos e suspiros durante todo o tempo em que eu ainda não estive aqui. Você é muito mais bonita do que pensei e estava muito mais assustada do que eu imaginei. Fiquei pensando em como teria sido dormir pela última vez naquele apartamento que você ajudou a escolher e na pior das hipóteses, sozinha. Eu sei que sabe que ele dormiu comigo.

Naquela noite, ele estava decidido. Te contaria afinal o porque da mudança repentina e revelaria a verdade: eu. Sei que houve choro, dor, uns palavrões sem rumo e ele te deixou sozinha ali. Quando chegou a minha casa, senti que ele havia feito o que não queria fazer, mas sim o que era necessário. Ele também estava aos prantos, caso não saiba. Me contou detalhes da sua reação e se perguntava a todo instante “por que?”. Confesso que me senti ofendida, mas sabia que eu não era a culpada. Eu o amo e ele entende isso, mas era notório sua dúvida por saber que uma mulher tão importante para ele deveria ser deixada.

Você deve estar se perguntando por onde anda minha compaixão feminina e eu acho que nunca tive. Me doeu saber que sofria, mas eu não poderia fazer nada mais. Sei que levou embora tudo que um dia você o presenteou e eu agradeço por isso. Me poupou o trabalho de perguntar e jogar tudo aquilo fora. Por agora, só desejo que você não seja um fantasma na minha vida e que me deixe dormir em paz. Tenho perdido o sono, caso também não saiba.

Depois que ele saiu de minha casa, na manhã seguinte, eu hesitei um pouco, mas sabia que o pior já tinha sido feito. Me deu uma dose de remorso pensar que em 80% das vezes que você ligava, era eu que estava por perto. Você dizia que estava com saudades e ele respondia “eu também” olhando em meus olhos. E o pior: eu sentia que ele ainda tinha dúvidas.

Quero que saiba que me doía deitar ao lado dele todos os dias enquanto era para você que ele dizia “eu te amo”. Nunca entendi porque, afinal, ele pedia tanta paciência, mas aprendi que era porque ele precisava de tempo para se decidir. Fica em mim a sensação de que ele me escolheu pela proximidade: eu estou a 20 minutos dele, enquanto você está a alguns estados de distância. Você sabe: ele é muito mais carente do que apaixonado. É muito mais alguém – qualquer alguém – do que eu ou você.

Mas, sabe, você é do tipo de mulher que eu ia adorar dividir uma tarde de compras e conversar um pouco mais sobre nosso ponto mais fraco. Não sou cruel, sou mulher como você. Me liga qualquer dia desses e comenta sobre os defeitos que ele carrega consigo. Me diz do que ele gosta, seu prato favorito e o que ele odeia fazer aos sábados a noite. Me poupa o trabalho de descobrir. Dividimos tanto da mesma coisa ao mesmo tempo. Me conta uns segredos também. 

Última partida - parte I

7 de janeiro de 2013



Não se preocupe em entender agora. Essa é só uma história como qualquer outra. O mesmo enredo para diversas versões de um só sofrimento.

Eu

Por amar com desamor. Por esperar que eu suprisse uma falta que nem você daria conta. Por sentir pela metade e por deixar que eu revestisse do calor sozinha. Porque eu sempre te ensinei a voar, mas jamais pensei que um dia roubaria minhas asas e voaria para longe de mim. A teoria que me pedia para manter a gaiola aberta nunca funcionou com a gente e você aprendeu a destruir grades. Você deveria ter me devolvido a cópia da chave, meu bem, mas a deu para outra.

Aquele dia o trajeto do ônibus foi um pouco maior e eu via seu reflexo pela janela sempre que a lágrima alcançava o canto do meu olho. Aquelas 20 horas de ônibus nunca foram nada quando a minha chegada era a sua espera e o meu adeus era uma promessa de até logo. Eu sempre odiei as montanhas que separavam nós dois. E eu havia rasgado sua foto, mas seu rosto jamais sairia da minha mente.

Eu ainda não acreditava. Você havia perguntado como eu ficaria minutos depois, me levou à rodoviária naquela tarde fria de outono, enquanto sussurrava “sua vida vai continuar”. Não teria sido crueldade arrumar outra no momento em que eu mais estive atrelada a você? Não foi cruel dizer que havia encontrado alguém que lhe deu certezas que eu jamais seria capaz de dar?

Eu peguei a passagem da sua mão certa de que era a última vez que eu te tinha assim. A partir de agora, você teria alguém para suprir suas loucuras de uma sexta à noite enquanto meus livros voltariam a fazer parte da minha rotina. Entrei naquele ônibus sem olhar para trás. Dei passos lentos em direção à poltrona 22 – o exato número do nosso aniversário de namoro. Por sorte, era uma janela que não coincidia com o lado em que você estava na rodoviária. Ainda assim, fiz questão de procurar se ainda estaria lá assistindo minha última partida. Mas não, você já tinha ido ao encontro dela. Ajeitei, então, minha mala, arrumei o travesseiro que você havia me dado e sentei virada para a janela. Eu precisava de ar e estava certa de que o vento ajudaria a me esvaziar de você. A senhora que sentou ao meu lado percebeu como eu estava e por um instante achei que questionaria algo, mas se limitou a perguntar se eu estava esperando alguém. “Não, minha querida. Tira essa espera de mim, pelo amor de Deus.” – foi a suplica que eu queria fazer.

Quando o ônibus saiu daquele lugar, eu realmente percebi o que estava acontecendo. Dei uma olhada rápida no estacionamento e percebi que você de fato já havia ido. Pode ir, meu bem. Te deixo, me deixo. Nos deixo. Só leva de mim essa sensação.

O fim doeu. E saber que o meu fim representava um novo início para você me incomodava ainda mais.
Uma, duas, três paradas. Eu já estava a 6 horas de você e ainda a 12 horas do meu reencontro. Era o momento de me aproveitar. Tampar as feridas que um dia vocês deixaram. Como funciona a sensibilidade de uma mulher que se deixar levar já sabendo que existe outra na vida dele? Será que essa já foi deixada em alguma caixa de brinquedo como presente do natal passado simplesmente porque o outro natal já chegou?

Na quarta parada, já sem lágrimas, mas ainda com muita vontade de chorar, a senhora desceu me deixando finalmente sozinha. Ela olhou para trás com os mesmo olhos de piedade de alguém que um dia implorou o amor de alguém. Ela me entendia, eu sabia. Na quinta parada, eu comemorei. Estava a 2 horas de mim e a muitas de um passado que eu deveria esquecer. “Por onde anda aquele meu amigo?” – pensei. Meu bem, você me conhece. Sabe dos meus métodos para tampar espaços. Sabe que esse vazio que você deixou só será preenchido depois que outro bagunçar os meus lençóis.

Sua mensagem perguntando se eu já estava em casa chegou e eu fui sutil quando disse que não. Mentira! Só queria mostrar que, além de você, eu também teria algo para fazer quando voltasse para essas montanhas que agora me protegiam de você, mesmo que fosse de madrugada. Quando o ônibus estacionou, eu suspirei certa de que agora era meu novo começo. Peguei minha bolsa, olhei para o travesseiro que manteve minha cabeça confortável enquanto minha mente explodia e resolvi deixá-lo ali.  Com sorte, ele conforta o coração de alguém que não o meu. Não preciso do seu conforto. Preciso de você, mas na falta, deitarei em outros ombros a procura do seu, mas enquanto isso aproveito ainda do seu casaco velho jogado no meu quarto que ainda é capaz de me aquecer.