Solte-se

2 de novembro de 2013


Solte-se de nós. Não se prenda. Não me agarre. Respira e me deixe respirar. Não espere minha volta, não deseje que eu olhe para trás. Não espere que eu sorria e nem seja capaz de sorrir quando eu voltar. Desfaça o laço. Esqueça meu abraço. Aceite minha luta, minha ida, minha paz sufocada. Entenda que seus dedos não encaixam mais no meu. Que sua boca não combina mais com a minha e que não é bom que eu desfile com você por aí. Não mais. Nunca mais. Largue me braço, mas me implore para ficar. Seja sutil com as palavras, mas não ouse me convencer. Só se arraste um pouco mais. Só me solte e me deixe ir. Até que eu volte. E te solte.

Sobre o tempo que a gente não tem

30 de outubro de 2013


Quando a vida cobra pausas e a gente não pode parar, é hora de se reinventar. Porque quem não tira tempo pra si, enlouquece lentamente. Perde a calma, a alma. Sem nem ver. Quando a vida não dá tempo, paredes são como prisões. A rotina sufoca, o stress preenche e o hobby vira luxo. E a gente bem sabe que gente que não tem tempo pra si mesmo também não tem tempo pra luxo. E a gente respira fundo. 1, 2, 3. Não pira. Não grita. Não desiste, acima de tudo. Quando a gente não tem tempo, a gente tenta. Inventa tempo, inventa paz. Inventa eu. Inventa você. 

Um novo amanhecer

23 de setembro de 2013


Todo novo amanhecer é uma nova oportunidade. De fazer diferente. Fazer feliz. Fazer em paz. Fazer bem. Fazer bem feito. Cada novo amanhecer traz a dose de recomeço necessária. Traz a coragem que a gente precisa para esquecer a tristeza, superar a dor, sentir a tranquilidade chegar e ser feliz. Traz a paz. Traz a cor, o amor. Uma nova visão de um novo dia. De uma nova ordem. Um novo mundo. Um novo eu. Um novo você.

Todo novo amanhecer traz.

Uma saudade faleceu em mim

15 de setembro de 2013


Uma saudade faleceu em mim. Deixou de existir no exato momento que percebi que você não voltaria mais. Faleceu o amor, a compaixão e a vontade. Aqui jaz um sentimento que deixou uma alma em paz. E eu até te agradeceria por isso, mas devo confessor que o mérito é só meu, para ser sincera. Eu sabia que você faleceria. Em mim. Aqui. Mais cedo ou mais tarde.

Naturalmente, não comemorei a morte, mas também não perdi muito tempo de luto. Me doeu acordar e ver que não era você que vinha em minha mente primeiro, mas no fundo eu fiquei feliz. Aquela tristeza pós-amor dói mesmo, você sabe. O luto também incomoda, mas esse passou rápido. Não que eu goste de mortes. Nunca gostei. Mas ver você morrendo em mim me trouxe uma sensação inédita: tranquilidade.

O inverno me fez bem, sabe? Consegui me aquecer sozinha. E me perguntei muito por onde você estaria e se estava tomando o seu chá toda noite. Com o tempo, passei a tomar esse mesmo chá também. E depois perdi o hábito de você. Você nunca foi uma necessidade e agora eu entendo isso. Posso deitar em paz, sonhar comigo mesma. Te expulsei dos meus sonhos e você não fez a menor falta na cama. Retomei certos hábitos sem o peso na consciência e por mais que ainda me doa um pouco, eu convivo em paz com a sua morte.

É uma ferida que não arde. Um machucado em pleno processo de cicatrização. Uma saudade que não existe. E uma paz que eu nunca pensei que fosse encontrar. É um desejo que descansa. Um amor que morreu em mim, enfim.

Sobre os nãos que você diz para você mesmo

5 de setembro de 2013


Rascunhado atrás de um papel encontrado na mesa que você se recusou a sentar.

Ando cansada de suas recusas e não consigo entender o que se passa em sua mente. Eu tive um sonho. E nele, as coisas também aconteciam. Como você pensa. Como eu penso. Nele, nossa imaginação ia além e nossos caminhos eram muito mais próximos. Não havia certo ou errado. Suas dúvidas eram mínimas e não existia “não”. Você ao menos sabia dizer o que sente.

O que você prefere não assumir é que, na verdade, minhas respostas são suas dúvidas. Você não as entende e recua sempre que iniciamos esse processo juntos. Você não me deixa explicar e eu tenho desistido nessas tentativas vagas. Eu sei que você também tem muito para falar, mas sua omissão às vezes me irrita. E eu nunca sei o que quer dizer quando muda repentinamente de comportamento.

Fui embora com um discurso entalado na garganta de novo. De novo não conseguir ler seus olhos. E de novo você sorriu como se eu nunca tivesse passado em sua vida. De novo. Você soltou meus dedos devagar me pedindo para ficar. Rima pobre, ritmo lento. Eu ficaria se você soubesse ser um pouco mais veloz. Se soubesse falar um pouco mais. Eu teria ficado se, ao invés de sorrir para mim, você tivesse me beijado. Eu ficaria por você. Mas enquanto seu silêncio for sua melhor resposta, eu me recuso a permanecer.

Agora eu sei que você vai desaparecer por um tempo. Sumir das minhas vistas. Fingir que nada acontece. Sei que vai sonhar com meu sorriso – e você sempre sonha – e acordar se perguntando o que é isso que a gente vive.

Você já sabe me ler. Já me desvenda. Entende perfeitamente o que quero e joga com isso. Esse teste patético que você me obriga a viver sempre que a gente se encontra tem roubado minhas energias e você não se cansa nunca. Você me confunde. Me sente. Mas mesmo assim se recusa. É que você, no fundo, diz não para você mesmo e nem sequer se dá conta disso. Eu sei, você sabe. Tudo isso, solto no ar, sem complementos, fins, conversas ou qualquer coisa aleatória que traga definições aliado às suas recusas representam um castigo que você mesmo criou. E acontece que você vive isso sozinho.


Você já sabe o que eu quero. Já sabe o que precisa fazer. Dê passos firmes que eu caminho com você. Te deixo até pisar na areia da praia. Te garanto que a gente o mar não leva. 

Simplicidade

20 de junho de 2013


Sinto falta de poemas simples. Menos complexidade nas palavras, Mais simplicidade na vida. Sinto falta de não conseguir deixar nada sub entendido entre as entrelinhas porque posso ser desvendada somente pelo título. Parágrafos secos quando se trata de quantidade, mas molhados quando se trata de sentimentos. Mais frases soltas, menos reticências que me prendem.

Por que te amo tanto?

12 de junho de 2013


Meu amor, gostaria de compartilhar com você por que te acho o homem mais incrível desse mundo, merecedor de cada uma dessas palavras:

Primeiro e naturalmente, porque você é moreno, tem a pele macia e uma pinta na ponta da orelha que já é capaz de me fazer apaixonar. E um jeito só seu, que já é meu também a 7 meses. Depois porque você nem é tão alto, mas tem as sobrancelhas grossas, os lábios carnudos e os olhos grandes. E eu amo esses seus olhos de jabuticaba que me olham com jeitinho embaraçoso sempre que eu te desafio. Que me olham de maneira furiosa e dócil ao mesmo tempo sempre que a gente passa dos limites. E que me olham na sexta-feira com aquele jeito de quem diz que estava morrendo de saudades, me fazendo sentir a mulher mais especial do mundo toda vez que a gente se reencontra. Aqueles olhos que dizem que a semana foi longa, mas que valeu a pena esperar.

Segundo, que eu gosto também dessa sua voz meiga quando me chama de amor. E desse seu jeito manso de falar que tudo vai ser resolver. E que eu arrepio com essas suas mãos macias que me puxam pela cintura toda vez que eu saio andando na frente. Que enrola o dedo nos meu cachinhos ou que passa a mão na minha testa sempre que vai me beijar. 

E eu até gosto quando você diz delicadamente que não vai me deixar fritar nada na cozinha ou quando questiona o tamanho do meus shorts, sempre fazendo questão de ser mais engraçado do que autoritário. Tem também quando me pede “por favor” para fazer qualquer coisa com a voz mais sutil do mundo, sempre me deixando a vontade e sem constrangimentos para decidir se quero ou não fazer algo (mas sempre sabendo que eu vou acabar fazendo).

Tem esses seus lábios rosados que são agressivamente delicados e conseguem me fazer derreter sempre que ganho um beijo na testa. E esse seu sorriso que começa de maneira delicada no canto da boca, mas se torna incrivelmente mais lindos deixando minhas bochechas rosadas também toda vez que eu vejo que é para mim.

Porque eu ainda fico sem graça toda vez que você me olha no fundo dos olhos como se quisesse me desvendar, me desdobrar e descobrir algo ainda desconhecido. E que eu fico sem graça com suas perguntas embaraçosas que me fazem soltar uma risadinha, mas acabar respondendo sempre que me olha com aquele ar de curioso.

Tem esse jeito manhoso de pedir beijo, de fazer carinho e de me abraçar sem que eu tenha que oferecer nada em troca. O jeito que você fala sobre sonhos, planos e sobre a nossa casa no meio do nada para levar a família nos fins de semana. Tem o jeito que fala sobre dinheiro, porque, acredite se quiser, consegue ser fofo ainda assim (afinal, sei o que sei sobre isso por sua causa). E o jeito poético como você diz das nossas incertezas, mas incríveis, projetos.

Tem esse seu jeito engraçado e abusado de me fazer rir, mesmo quando a minha vontade é chorar. E essa sua mania de me pedir para decidir as coisas quando na verdade o que eu quero é que você escolha. Tem sua indecisão que me mata. Tem seu silêncio que me comove. E tem seu jeito estranho, mas simples, de me dizer que não gostou de alguma coisa.

E tem o principal: seu jeito único de me enxergar, fazendo a gente parecer peça exclusiva de alguma vitrine por aí. Seu jeito de fazer meus olhos brilharem e de desejar simplesmente que esses olhos queiram me olhar mais e mais. E por último (que não é o último mesmo, afinal posso passar horas listando infinitas coisas aqui), mas não menos importante: tem seu jeito doce e incrível que me faz estar mais apaixonada por você e pela vida cada dia que eu passo do seu lado. Afinal, descobri que assim como você e como a gente, a vida é linda demais e merece ser vivida ao lado de alguém. Alguém de intensidades, de carne e osso, mas também coração.


Se

2 de maio de 2013

Se. Se eu tivesse feito outras escolhas. Se eu tivesse acreditado menos. Se meus olhos não dissessem tanto. Se minha intensidade não tivesse derrubado barreiras. Se a saudade não tivesse estourado o peito. Se eu tivesse aprendido a conviver com a ausência. Se eu deixasse de ser menos "somos" para ser mais "sei lá". Se você tivesse mais dúvidas. Se tudo isso deixasse de ser se, a gente seria menos sim.

Sua dúvida atormenta minhas certezas. Seria uma pena se eu não estivesse tão certa.

Meu último adeus

25 de fevereiro de 2013

E você marcou a data do seu casamento. Eu poderia dizer qualquer coisa sobre isso, mas preciso me limitar ao silêncio. Silêncio que eu esperei anos para que fosse preenchido por você, mas não. Foi preenchido pela sua falta. Pela espera daquele beijo que nunca aconteceu. Pela presença do adeus que eu senti sozinha. Pelo gosto amargo das lembranças. Pela sutileza dos olhares que quase nunca se cruzaram mais por aí. Pelo detalhe ignorado. Pelo sentimento escondido.

Eu poderia aparecer na porta da igreja. Você olharia para trás, eu mandaria um beijo dizendo que sempre te amei e você abaixaria a cabeça. Você sabia que deveria ter sido eu. Que sempre fui eu a pessoa que você queria para a vida. Mas sua teimosia, meu bem, ainda vai te matar. Você olharia para o lado e se perguntaria por que não sou eu que estou ali, atravessando em seus dedos um anel amarelo com meu nome. E aí você irá se lembrar. Das vezes que tentei roubar um beijo. Das vezes que te pedi amor. Das vezes que meu olhar só queria entender porque nossas exatidões nunca funcionavam numa soma de mais. Das vezes que eu só queria você. Você olharia para trás de novo e eu já teria ido. Afinal, eu não mereço ver de tão perto a realização de um sonho nosso onde não sou eu a personagem principal.

Me pergunto se você a torturou tanto quanto me torturou também ou se você simplesmente a olhou e percebeu que era ela que deveria terminar os dias ao seu lado. Se pensou ou se simplesmente escondeu o que de melhor havia sido vivido entre nós dois, por mais que a gente nunca tenha dito que se amava. Me surpreende saber que aquele homem tão forte se deixou levar pelo encantos de qualquer outra garotinha por aí. Me surpreende saber que nos esqueceu com a mesma velocidade com que resolveu nos deixar.

Felicidade, meu bem. É isso que te desejo. Para mim, para você, para um nós onde eu não estou mais incluída. E se me permite ser cruel, desejo que encoste a cabeça no travesseiro e se lembre daquela música. Daquele abraço na chuva. Daquele brinde em comemoração à um gol qualquer. Se me permite mesmo, desejo que se lembre dos detalhes que nunca poderão ser excluídos e do sorriso que você prometeu nunca esquecer. 

Além de um mero strip-tease

17 de fevereiro de 2013


Eu me dispo lentamente para você. Desfaço de velhos hábitos, antigas histórias. Começo deixando escorrer as verdades para que você possa entender o que há por debaixo das meias palavras que eu me recuso a dizer. Tiro o ar arrogante, desabotoo o orgulho e aceito que você enxergue por detrás dos meus olhos. Sempre que dou uma volta com aquele jeito perspicaz de quem expele sensualidade, eu permito que você saiba na verdade como eu sou. Quem existe por trás da armadura de força e do coração mole que você sempre dá o trabalho de entender.

Então você me desdobra. Desvenda. Descobre. Arranca minhas máscaras em plena luz do dia e enxerga meu sentimento cru e nu. Você engole as palavras, escuta meus murmúrios e vomita sutilezas. Me prende, me sente. E a gente se ama debaixo do calor do sentimento, deixando de lado qualquer hipocrisia que nos impeça de ser verdade, de ser amor. Permito então, que por último minha máscara vá ao chão e você enfim, possa entender do que se trata minha alma antes de descobrir, afinal, o meu corpo. 

Em mim

1 de fevereiro de 2013



O seu nome não apareceu em uma daquelas latinhas de refrigerante. Meu nome não é comum e eu tinha que repetir duas ou três vezes sempre que você me apresentava para alguém. “Como se pronuncia mesmo?” “É com D!”. Você ria do acaso, eu tentava ignorar o detalhe. Nunca seremos um casal digno de propaganda de shopping no dia dos namorados - eles não suportariam tamanha semelhança. Em compensação, nossa história avisou e apareceu.

A gente até poderia merecer um desses outdoors com o nosso sorriso estampado. Todo mundo fala que são perfeitos e eu até que concordo. Mas optamos pelo silêncio. Gritar felicidade trouxe problemas e a gente aprendeu a viver calado. Não que seja o ideal, mas é excitante. Dá adrenalina pensar que o próximo encontro pode nunca existir, mas dá mais felicidade ainda saber que ele existirá.

A tranqüilidade demorou, mas apareceu. O dia começou a clarear e aquele arco-íris que eu tanto quis fotografar surgiu bem naquele dia que a gente se perdeu em um desses centros enormes de qualquer cidade grande. E eu me perdi em você. Acolhemos nós dois e sorrimos para todo o resto. Semelhanças a parte, adoro nossas diferenças também. Levou tempo, mas a gente se notou.

Não é nem questão de uma combinação de nomes. Eu não tomo refrigerante e conseqüentemente não tenho tempo para procurar seu nome em uma dessas latinhas. Não é uma questão de combinação de sorrisos, porque eles notoriamente se encaixam. E nós bem sabemos que são lindos mesmo. É uma questão de sintonia, de soma. Uma questão força, coragem e de felicidade.

E não, não me cansarei de falar de sorrisos, porque foram com eles que a gente descobriu como é simples ser feliz. O meu se tornou conseqüência do seu e aparece toda vez que você canta qualquer trechinho de música no pé do meu ouvido. O seu? Ah, o seu acaba com qualquer tempestade. Ilumina o dia e me faz lembrar que eu não preciso encontrar seu nome escrito por aí. Eu já o escrevi aqui. Em mim. 

Última partida - parte III

30 de janeiro de 2013



Ele

Queria poder ainda te chamar de minha querida, mas sinto que não posso mais. Foi uma escolha árdua, você sabe. Não te quis ver sofrer e tenho certeza que jamais entenderá meus motivos, mas eu estava confuso. Eu sempre soube que essa distância nunca daria certo mesmo. Aquelas promessas de reencontro, de até logo que nunca se cumpriram, essa sua mania de me esconder do mundo mesmo me garantindo que me amava. Eu nunca entendi.

E então, ela apareceu. Sem mais, nem menos. Em uma tarde qualquer naquele shopping que você tanto gosta. Nunca foi minha intenção, mas, sabe, havia um vazio e eu tinha uma necessidade quase que imediata da suprir com a falta que você me fazia. Não foi certo colocar outra no seu lugar, mas entenda que eu já não estava certo do que você afinal queria. Hora sim, hora talvez. Eu tinha encontrado alguém disposta a fazer por mim tudo que quis fazer por você um dia e você nunca me permitiu.

Sei que não deve estar sendo fácil, mas sua vida irá continuar. O meu recomeço chegou um pouco mais cedo, mas ele logo apareceu. O seu chegará também. Te conheço e sei que não demorará a encontrar outro para preencher o vazio que eu deixei nos seus lençóis. E quanto ao vazio do seu coração, esse você mesma preenche. Sei que é capaz.

Aquela noite, em meu apartamento, foi um tanto dolorosa. Eu ainda tinha dúvidas – e que ela nunca me escute dizer isso. Eu ainda gosto de você e o carinho que eu sinto, mulher nenhuma vai ser capaz de tirar. Acredite. Só que ele já não é mais o suficiente para me manter ligado a você. Não foi minha intenção te abandonar sozinha ali, mas eu sabia que precisava de tempo. E eu não podia permanecer ao seu lado sabendo que ódio era a única coisa que define o que você sentiu por mim àquela hora. Eu fui covarde, eu sei.

Não quero ser muito longo em minha despedida. Nunca fui bom com isso e eu estou sofrendo, caso não acredite. No pior dos casos, ela percebe cada detalhe disso e fica confusa toda vez que eu toco em seu nome. Eu sei que estou me confundindo e, sem querer iludir, talvez eu volte só para te dar um oi quando eu aparecer aí nesse estado que agora tem parte do meu passado. Essa montanhas que pareciam tão românticas toda vez que estávamos longes, serão responsáveis agora por te fazer esquecer e te proteger de cada lembrança difícil que eu deixo agora em você.

Odeio ser romântico, mas eu acho que te devo desculpas. Me perdoa por ter encontrado outra. Me perdoa por ter sido fraco e ter deixado que outro alguém, que não você, ocupasse minha cama e meu coração. Me perdoa pelas lágrimas que te fiz derramar e me perdoa pela crueldade. Você não deveria ter me posto em uma gaiola. Eu deveria ter escolhido ficar por si só, mas não. Sinto muito, mas chegou a minha hora de voar. 

Última partida - parte II

10 de janeiro de 2013



Ela

Eu sei que foi cruel. Não sei como deixamos tudo chegar a esse ponto, mas entenda que ele nunca te quis ver sofrer. Ele te amou, minha querida. Mas por acaso do destino, nós nos cruzamos no shopping justo no dia em que ele comprava o seu presente. Nunca foi minha intenção destruir nada do que vocês estavam vivendo, mas ele me garantiu que tudo já estava destruído o suficiente. Eu só dei forças para que ele abandonasse uma história que o fazia infeliz.

Eu não te devo desculpas.

Naquela tarde de outono, eu deixei que ele te levasse à rodoviária e confesso: estive em meu carro, estacionado logo ao lado do dele, durante todo o tempo. Eu merecia saber quem era, afinal, a garota que roubou sorrisos e suspiros durante todo o tempo em que eu ainda não estive aqui. Você é muito mais bonita do que pensei e estava muito mais assustada do que eu imaginei. Fiquei pensando em como teria sido dormir pela última vez naquele apartamento que você ajudou a escolher e na pior das hipóteses, sozinha. Eu sei que sabe que ele dormiu comigo.

Naquela noite, ele estava decidido. Te contaria afinal o porque da mudança repentina e revelaria a verdade: eu. Sei que houve choro, dor, uns palavrões sem rumo e ele te deixou sozinha ali. Quando chegou a minha casa, senti que ele havia feito o que não queria fazer, mas sim o que era necessário. Ele também estava aos prantos, caso não saiba. Me contou detalhes da sua reação e se perguntava a todo instante “por que?”. Confesso que me senti ofendida, mas sabia que eu não era a culpada. Eu o amo e ele entende isso, mas era notório sua dúvida por saber que uma mulher tão importante para ele deveria ser deixada.

Você deve estar se perguntando por onde anda minha compaixão feminina e eu acho que nunca tive. Me doeu saber que sofria, mas eu não poderia fazer nada mais. Sei que levou embora tudo que um dia você o presenteou e eu agradeço por isso. Me poupou o trabalho de perguntar e jogar tudo aquilo fora. Por agora, só desejo que você não seja um fantasma na minha vida e que me deixe dormir em paz. Tenho perdido o sono, caso também não saiba.

Depois que ele saiu de minha casa, na manhã seguinte, eu hesitei um pouco, mas sabia que o pior já tinha sido feito. Me deu uma dose de remorso pensar que em 80% das vezes que você ligava, era eu que estava por perto. Você dizia que estava com saudades e ele respondia “eu também” olhando em meus olhos. E o pior: eu sentia que ele ainda tinha dúvidas.

Quero que saiba que me doía deitar ao lado dele todos os dias enquanto era para você que ele dizia “eu te amo”. Nunca entendi porque, afinal, ele pedia tanta paciência, mas aprendi que era porque ele precisava de tempo para se decidir. Fica em mim a sensação de que ele me escolheu pela proximidade: eu estou a 20 minutos dele, enquanto você está a alguns estados de distância. Você sabe: ele é muito mais carente do que apaixonado. É muito mais alguém – qualquer alguém – do que eu ou você.

Mas, sabe, você é do tipo de mulher que eu ia adorar dividir uma tarde de compras e conversar um pouco mais sobre nosso ponto mais fraco. Não sou cruel, sou mulher como você. Me liga qualquer dia desses e comenta sobre os defeitos que ele carrega consigo. Me diz do que ele gosta, seu prato favorito e o que ele odeia fazer aos sábados a noite. Me poupa o trabalho de descobrir. Dividimos tanto da mesma coisa ao mesmo tempo. Me conta uns segredos também. 

Última partida - parte I

7 de janeiro de 2013



Não se preocupe em entender agora. Essa é só uma história como qualquer outra. O mesmo enredo para diversas versões de um só sofrimento.

Eu

Por amar com desamor. Por esperar que eu suprisse uma falta que nem você daria conta. Por sentir pela metade e por deixar que eu revestisse do calor sozinha. Porque eu sempre te ensinei a voar, mas jamais pensei que um dia roubaria minhas asas e voaria para longe de mim. A teoria que me pedia para manter a gaiola aberta nunca funcionou com a gente e você aprendeu a destruir grades. Você deveria ter me devolvido a cópia da chave, meu bem, mas a deu para outra.

Aquele dia o trajeto do ônibus foi um pouco maior e eu via seu reflexo pela janela sempre que a lágrima alcançava o canto do meu olho. Aquelas 20 horas de ônibus nunca foram nada quando a minha chegada era a sua espera e o meu adeus era uma promessa de até logo. Eu sempre odiei as montanhas que separavam nós dois. E eu havia rasgado sua foto, mas seu rosto jamais sairia da minha mente.

Eu ainda não acreditava. Você havia perguntado como eu ficaria minutos depois, me levou à rodoviária naquela tarde fria de outono, enquanto sussurrava “sua vida vai continuar”. Não teria sido crueldade arrumar outra no momento em que eu mais estive atrelada a você? Não foi cruel dizer que havia encontrado alguém que lhe deu certezas que eu jamais seria capaz de dar?

Eu peguei a passagem da sua mão certa de que era a última vez que eu te tinha assim. A partir de agora, você teria alguém para suprir suas loucuras de uma sexta à noite enquanto meus livros voltariam a fazer parte da minha rotina. Entrei naquele ônibus sem olhar para trás. Dei passos lentos em direção à poltrona 22 – o exato número do nosso aniversário de namoro. Por sorte, era uma janela que não coincidia com o lado em que você estava na rodoviária. Ainda assim, fiz questão de procurar se ainda estaria lá assistindo minha última partida. Mas não, você já tinha ido ao encontro dela. Ajeitei, então, minha mala, arrumei o travesseiro que você havia me dado e sentei virada para a janela. Eu precisava de ar e estava certa de que o vento ajudaria a me esvaziar de você. A senhora que sentou ao meu lado percebeu como eu estava e por um instante achei que questionaria algo, mas se limitou a perguntar se eu estava esperando alguém. “Não, minha querida. Tira essa espera de mim, pelo amor de Deus.” – foi a suplica que eu queria fazer.

Quando o ônibus saiu daquele lugar, eu realmente percebi o que estava acontecendo. Dei uma olhada rápida no estacionamento e percebi que você de fato já havia ido. Pode ir, meu bem. Te deixo, me deixo. Nos deixo. Só leva de mim essa sensação.

O fim doeu. E saber que o meu fim representava um novo início para você me incomodava ainda mais.
Uma, duas, três paradas. Eu já estava a 6 horas de você e ainda a 12 horas do meu reencontro. Era o momento de me aproveitar. Tampar as feridas que um dia vocês deixaram. Como funciona a sensibilidade de uma mulher que se deixar levar já sabendo que existe outra na vida dele? Será que essa já foi deixada em alguma caixa de brinquedo como presente do natal passado simplesmente porque o outro natal já chegou?

Na quarta parada, já sem lágrimas, mas ainda com muita vontade de chorar, a senhora desceu me deixando finalmente sozinha. Ela olhou para trás com os mesmo olhos de piedade de alguém que um dia implorou o amor de alguém. Ela me entendia, eu sabia. Na quinta parada, eu comemorei. Estava a 2 horas de mim e a muitas de um passado que eu deveria esquecer. “Por onde anda aquele meu amigo?” – pensei. Meu bem, você me conhece. Sabe dos meus métodos para tampar espaços. Sabe que esse vazio que você deixou só será preenchido depois que outro bagunçar os meus lençóis.

Sua mensagem perguntando se eu já estava em casa chegou e eu fui sutil quando disse que não. Mentira! Só queria mostrar que, além de você, eu também teria algo para fazer quando voltasse para essas montanhas que agora me protegiam de você, mesmo que fosse de madrugada. Quando o ônibus estacionou, eu suspirei certa de que agora era meu novo começo. Peguei minha bolsa, olhei para o travesseiro que manteve minha cabeça confortável enquanto minha mente explodia e resolvi deixá-lo ali.  Com sorte, ele conforta o coração de alguém que não o meu. Não preciso do seu conforto. Preciso de você, mas na falta, deitarei em outros ombros a procura do seu, mas enquanto isso aproveito ainda do seu casaco velho jogado no meu quarto que ainda é capaz de me aquecer.