Só mais uma

29 de setembro de 2012


E se vestia lentamente como fizera em todas aquelas noites. A camisola de seda escorria pelo seu corpo com uma delicadeza invejável e ela aproveitava o momento. Sem ninguém a quem dedicar à ação, ela ia todos os dias delicadamente a estante e passava aquele óleo que trouxera de uma viagem há muito tempo atrás. Sem muitas delongas, pegava um cobertor e deitava certa de que estava sozinha. Sentia os pelos quentes roçando seu corpo e, então, embalada pelo silêncio noturno, dormia feito um anjo de asas feridas.

Fora tomada por pensamentos infames durante todo o tempo que esteve longe, mas a mente sempre permaneceu vagando em um só lugar. Era alimentada pela frustração misturada a felicidade de ser simplesmente assim: indecifrável. Viveu histórias de outras pessoas, presenciou clichês durante a maior parte do tempo. E se rendeu aos laços e pedidos que desejavam sua mudança. Odiava ter que ouvir sua voz interior, mas acabava se rendendo aos planos de ir mudando pouco a pouco.

Era alguém que abandonaria qualquer história a qualquer momento, mas isso nunca a impediu de vivê-las. Era capaz de dormir completamente arrependida, mas nunca acordava com a vontade de ter feito algo. A frieza só se fazia presente quando se tratava de autoproteção. Se recusava a recolher culpas e a tomar novas decisões. Preferia a certeza de um não à dúvida de um talvez - eu disse que sua vida também era um clichê impagável.

Gostava da segurança, da tranqüilidade. Procurava paz. Precisava de espaço mesmo que aquela casa passasse a maior parte do tempo vazia. Sua rotina exalava antigos cheiros, mas isso nunca deixou que ela optasse por antigas escolhas. Frequentava antigos lugares, trocava com estranhos os mesmos olhares de sempre. Era alguém sem nexo ou ordem. Irreal, surreal, real. Era só mais uma.

Acordava todas as manhãs no mesmo horário e mais uma vez usava seu óleo corporal. Calculava seus passos, repensava todos os seus planos. Os sonhos ela deixava para depois. Passava a mão no cabelo certa de que talvez fosse uma pessoa inconsequente,  mas apesar das circunstâncias, gostava de ser alguém assim. Por fim, pensava em uma certeza: suas asas de anjo, que por todas as noites dormiam feridas, acordavam prontas para um novo voo e certas de que novos machucados viriam.

Procura-se alguém que goste de Teatro Mágico

19 de setembro de 2012


Procura-se um amor que me chame de menina, que guarde minha primeira blusa de lã e que me case consigo. Alguém que entenderá quando eu disser que às vezes minto tentando ser metade do inteiro que eu sinto. Que subirá na pedra mais alta ecoando notas pra todo dia. Procura-se alguém que nos faça ser como feijão e arroz que só se encontram depois de abandonar a embalagem, mas que seja também capaz de construir nosso pequeno castelo enquanto sobra tanta falta.

Que toque sonho em uma flauta, que entenda que nossa sina é se ensinar e que enquanto respirar, se lembre de mim também. Que seja meu anjo mais velho, meu mérito e meu monstro. E que entenda que eu não sei na verdade quem eu sou. Tem hora que sou senhora (tem horas? que horas são?). Alguém que não faça, não vá e se desaprenda. E que se perca nas margens de mim.

Prefiro alguém que goste da entrega, da folia no quarto e que entenda o que se perde quando os olhos piscam. Que não seja Chico, mas queira tentar. Que não tenha a fé solúvel, mas que saiba que o tudo é uma coisa só. Que reconheça minha pressa e sua prece. Alguém que me dê um sorriso por ingresso. E que não falte assunto e nem acesso. No fundo, que saibamos calcular a tática e a estratégia. Porque, afinal, eu só quero alguém que me bagunce, tumultue tudo em mim. Que assimile, dissimule, afronte, apronte e carregue-me nos abraços. Alguém que enfim saiba quão mágico é todo esse teatro.

O amor...

16 de setembro de 2012

O amor maduro não é menor em intensidade. Ele é apenas quase silencioso. Não é menor em extensão. É mais definido, colorido e poetizado. Não carece de demonstrações: presenteia com a verdade do sentimento. Não precisa de presenças exigidas: amplia-se com as ausências significantes.

O amor maduro somente aceita viver os problemas da felicidade. Problemas da felicidade são formas trabalhosas de construir o bem e o prazer. Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro. O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão. Basta-se com o todo do pouco. Não precisa nem quer nada do muito. Está relacionado com a vida e a sua incompletude, por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso. É feito de compreensão, música e mistério. É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança.

O amor maduro não disputa, não cobra, pouco pergunta, menos quer saber. Teme, sim. Porém, não faz do temor, argumento. Basta-se com a própria existência. Alimenta-se do instante presente valorizado e importante porque redentor de todos os equívocos do passado.
O amor maduro é a regeneração de cada erro. Ele é filho da capacidade de crer e continuar, é o sentimento que se manteve mais forte depois de todas as ameaças, guerras ou inundações existenciais com epidemias de ciúme. O amor maduro é a valorização do melhor do outro e a relação com a parte salva de cada pessoa. Ele vive do que não morreu mesmo tendo ficado para depois. Vive do que fermentou criando dimensões novas para sentimentos antigos, jardins abandonados cheios de sementes.

Ele não pede, tem. Não reivindica, consegue. Não persegue, recebe. Não exige, dá. Não pergunta, adivinha. Existe, para fazer feliz. Só teme o que cansa, machuca ou desgasta.

(Artur da Távola)

Quase eterna estiagem

13 de setembro de 2012



Uma pausa. Aquele espaço vazio entre os tempos, entre os acontecimentos, entre colheitas. Nada de frutas maduras ou podres caindo do pé. Nada de flores brotando entre as folhas. A seca quase devasta e o tempo de chuvas ainda vai demorar a chegar. Um momento de pausa, quase eterna pausa. Nada te surpreende, nada de te decepciona. A bagunça interna é tanta que o destino se esqueceu de te dar uma força e você se esqueceu de fazer acontecer. Só refletir e nada mais.

Mais importante que tratar de criar um foco ou correr atrás do que quer, é reconhecer que haverá um momento em que tudo entrará em um leve descompasso. Nada agradará, nada melhorará. Mas é nesse momento que sua vida precisa de cautela. É o momento que você para na rua quando está prestes a virar a esquina e se pergunta se é isso mesmo que deve fazer. É um momento de perguntas e de reconhecer que é entre as safras que se conhece a plantação de cultiva, arranca as ervas daninhas e faz o possível para que, quando a estiagem passar, você saiba colher bons frutos sem deixar nada apodrecer por desuso. 

Indecifrável

5 de setembro de 2012



Sou tormento. Me bagunço com a mesma facilidade com que penso. E mesmo quando sou paz, ainda posso fazer barulho. E dizer que sou leve como o vento ou forte como uma tempestade é clichê demais para alguém que não se encaixa nos padrões. Não sou. Aliás, existem mesmo os padrões? Às vezes alma de menina, outras pensamentos de uma idosa. Danço conforme a música, mas adoro sair do ritmo. E sempre trago alguém para dançar comigo.

Cantorias só são válidas se partirem do coração. Cartas e palavras também. Não sei dizer em vão, não sei amar em vão. Porque metade de mim é sentimento e outra ainda também é. (In) Felizmente. Vez em quando eu seguro na mão da vida e atravesso a rua de cabeça erguida. Vez em quando eu prefiro me esconder do mundo. Mas é só de vez em quando. Estou sempre por aqui, engolindo nós e absorvendo encantos.

Adoro a minha bagunça. Me perco, me encontro, me completo. E finjo que sou uma pessoa organizada. E finjo que sei me organizar. Começo e não termino. Concluo antes mesmo de iniciar. E planejo. Olhos fechados e pé no chão. Ou, como prefiro acreditar, olhos abertos, mas voando presa por uma asa só. Sem mais.

Alguém me disse que seria fácil, mas confesso que eu nem acreditei muito. Outro, já previu a dificuldade e me alertou a tempo. Se é fácil ou difícil? Ainda não sei. Além de tormento, sou descoberta.  Me descubro, me cubro, protejo. Me apego, afago e deixo ir. Não fácil, não sem lágrimas. Mas sempre deixo. Adepta da insistência, do coração mole e dos sentimentos exacerbados. Intensidade deveria estar escrito na minha carteira de identidade (alguém deixou esse detalhe passar!).

É pecado se preocupar além? Penso que não. Ninguém nunca me disse nada. E se não disseram, já nem é hora de dizer mais. Sou mudança também, te contei? “Bom dia” de cara amassada. Beijo na testa seguido de um “te cuida”. Fora isso, sou um texto inacabado. Indecifrável. Reticências que não me abandonam, vírgulas que não me deixam em paz. E alguns parágrafos soltos por aí. Um dia você encontra, um dia eu me encontro. Mas enquanto isso não acontece, se cuida viu?!

Seu jogo, minhas regras

3 de setembro de 2012


E você vem com essas palavras doces conquistando quem quer que passe pelo seu caminho. Eu sei e você também sabe que é isso que acontece. Esse seu jeito manso, carismático já deve ter conquistado muitas por aí e você nunca desiste. Mais e mais pessoas todo o tempo. E acredite: isso não é defeito. É qualidade. Dessas que se desenvolvem na pessoa certa.

Só que, de vez em quando, eu não entendo essa brincadeira. E essa sua mania de transformar brincadeiras em algo sério demais. Regras sem nexo, jogadores escolhidos aleatoriamente e você, delicadamente vigiando se tudo está dentro do esperado. Jogos à parte, às vezes tenho a sensação de que você se perde entre as entrelinhas e acaba misturando o não esperado com o real. E isso te confunde. Pode assumir, porque eu sei que confunde.

Acho que deveria repensar o seu jogo ou os jogadores, como preferir. Ou, se achar conveniente, deixe-me participar e mudar as regras. Que graça tem jogar sempre do mesmo jeito, hein? Aposto que você usa o mesmo roteiro com todas e isso tem dado certo pelo visto. Só que dessa vez não. Vou ignorar suas imposições, tirar esse seu controle patético e criar as minhas regras. Talvez você devesse assumir sua condição de jogador, querido.

Não quero parecer estar no controle, mas você há de concordar que não é necessário seguir esse script que insiste em manter. Já parou para pensar que nós somos exceções a todas as regras? Pois então deixa disso, garoto. Ao menos uma vez, deixe o imprevisível acontecer. Pare de calcular tanto e impeça que essa história seja só mais uma na sua vida. Aliás, a gente bem sabe que esse jogo não termina aqui e acredite em mim ao menos uma vez: os dois ainda podem sair vitoriosos, é só você dizer que sim.