Devaneios de uma mulher (quase) mandona

31 de julho de 2012


Anda! Tira essa calça e coloca uma bermuda. Já disse: Se for para ser, vai ter que ser do meu jeito. Odeio esse seu corte de cabelo e essa sua blusa de gola V. Onde você comprou não tinha nenhuma para homem não? Meu querido, entenda que se for para ficar comigo, terá que andar feito homem. Sem arrogâncias e bem arrumado, porque mulher nenhuma merece homem com cara de que acabou de ser acordado, não é? Muito menos com essa barba de ontem. Aliás, vou abrir uma exceção: Deixe a barba crescer, é sexy e transmite seriedade - coisa que de longe se nota que falta em você.

Pode ficar com as havaianas, essa aí pelo menos combina com aquele boné amarelo ridículo que você tanto gosta. Mas por favor, saiba como e quando usar. Sempre não, porque é sinal de desleixo. E a blusa? Você ainda não vestiu? Não vou ficar te "montando" não, meu querido. Longe de mim escolher o que você terá que usar, mas terá que aprender uma coisa também: homem tem que ter jeito de homem, rosto de homem e terá que se vestir como homem. Deixe as dúvidas para os garotinhos.

Aliás, dá próxima vez capricha mais no perfume. Mulher nenhuma aguenta cheiro de desodorante de supermercado ou perfume barato de revista. Não exijo nada caro, exijo coisa boa. Vai lá colocar seu relógio de pulso que eu vou escolher uma camisa aqui. Hmm.. Gosto dessa! Te deixa malandro sem beirar a cafajestagem. Agora vai lá e se veste, porque é minha vez de me arrumar. E ai de você se der um palpite sequer.

Encerrando ciclos

28 de julho de 2012


Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos – não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.

Foi despedido do trabalho? Terminou uma relação?
Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país?
A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?

Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu. Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seu marido ou sua esposa, seus amigos, seus filhos, sua irmã, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora. Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem. Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração – e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.

Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.

Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.

Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do “momento ideal”. Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará.

Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa – nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.

(Fernando Pessoa)

Complexas reticências e um longo ponto final

23 de julho de 2012

É apertando que a gente encontra espaços. A gente aperta tanto que acaba colocando reticências onde deveria existir um ponto final. Mania tola! Reticências deixam a firmeza frouxa e a certeza balançada demais. E uma vez que aparecem, elas triplicam a história como donas da situação. Ao contrário do que se pensa, completar com vírgulas só piora.

Pontos finais em excesso em um mesmo enredo deixam arrependimentos jogados por aí. Migalhas da sensação de que poderia ter sido diferente. Resto da certeza de um erro, do "não quero mais, mas posso tentar de novo". Às vezes reticências provam o contrário. Provam que quando se aperta uma única vez para dar espaço a continuidade, elas insistem em não aparecer durante o resto da história, porque não é mais necessário.

Essas reticências deixam um gosto amargo, mas são logo disfarçadas com o doce das palavras emboladas que vem a seguir. Deixam fel na boca de quem procura mel. E deixam a incrível sensação de um talvez que nunca será cumprido. Afinal, o outro caminho ali estava, mas você preferiu andar em cima dos pontos e fingir que não poderia cair por entre os espaços. Preferiu escolher o "não consigo, mas posso tentar" do que de fato se arriscar colocando um ponto final e construir um novo parágrafo. Reticências vem de uma mistura de sorrisos e lágrimas e vez ou outra nos ensinam o que vale ou não à pena e em outros casos mostram quão errados estamos.

E ainda dá tempo! Sempre é hora de apagar os últimos dois pontos e encerrar a história sem a necessidade de vírgulas. É triste, mas é tão simples - ou complexo - quanto terminar textos. Sem mais e com um mero ponto final... ou não.

Os míseros restos de uma vida

21 de julho de 2012



E você não veio essa noite. Nem nessa e nem em todas as outras. Não sei mais identificar onde a nossa história começou a desandar e a gente nem sequer voltou tudo para o lugar, meu bem. Hoje você não veio e temo que não virá nas próximas também. Onde foi parar aquela sintonia de sempre? Cadê aquele beijo matinal que você prometeu que seria para o resto das nossas vidas?

Não entendo essa vontade louca de juntar o resto das suas lembranças, colocá-la em uma caixa e mandá-las de volta ao remetente. Continuar a vida sem seus rastros me parece mais agradável do que (sobre)viver com os restos fantasmagóricos da vida que a gente viveu. Restos estes que me pergunto se você ainda guarda como eu os guardo. Se ainda lembra como eu me lembro.

Ainda tem uma blusa guardada ali. Inundando meu quarto de sonhos e espalhando esse seu cheiro de perfume barato no resto das minhas roupas. Queria me desfazer da peça assim como nos desfizemos de nós dois, mas ela é só uma peça, afinal, e eu nem durmo mais com ela. Te eliminei do corpo antes de te eliminar da mente, mas o tolo do coração insistiu em não te esquecer. E aquela blusa jamais voltará a ser sua enquanto existir a mísera angústia da falta aqui. Falta porque você não volta mais, e isso nem é um problema para você! É problema para mim!

E quer mesmo saber? Então leva! Leva de volta a caixa com todas as suas lembranças, com a sua rotina incorporada a minha vida, com parte da sua vida. Me deixe somente com a vontade de transformar tudo isso em saudade. Saudade de algo que um dia nem saberei mais do que se trata, mas terei somente a certeza que existiu.

A nossa espera

18 de julho de 2012



Eu queria você. Bem daquele jeito que só você sabe ser e de qualquer maneira. E a gente nunca sequer entendeu o que tanto se passou entre nós. Porque tantas idas e vindas entre tantos anos. A gente nunca entendeu o que é isso que fez a gente permanecer assim, tão longe e tão perto. Entre uma desculpa ou outra, uma dispensa ou outra. A gente sempre permaneceu ali, intacto até que o outro precisasse.

Sempre achei a gente um casal bem típico de espera. Um precisa e o outro liga. Um quer e o outro atende. Sem sentimentos exacerbados, sem exigências. Sem fidelidade e sem nada que nos ligasse de fato. Era só isso: pele. Essa pele que ardia sempre que estávamos lado a lado. Essa pele que fazia a gente pular os assuntos clichês da noite e partir para o que interessa de fato. E eu nunca vou entender porque tudo entre nós dois sempre aconteceu assim. Nunca vou entender porque apesar de tanto tempo, tantas mudanças e tantos erros, a gente continuou se querendo como casal, mas mantivemos a linha de bons amigos e tirávamos proveito do nosso benefício vez ou outra.

Não se ofenda com a espera e nem se preocupe com os erros. A gente bem sabe que vamos continuar nos desejando loucamente apesar disso. Que vou morder a boca sempre que passar ao meu lado. Que você vai tentar, eu vou resistir até não agüentar mais e me entregar como sempre quis. Eu nunca vou entender mesmo. Nunca vou entender o que é isso que ainda liga a gente. O que é isso que ainda não morreu. E talvez eu até deva dizer que bom que não morreu.

Esse é só mais um adeus...

2 de julho de 2012


Pela primeira vez eu não quero te sentir. Não quero te ver. Não quero nada de você. Seu cheiro ainda exala constantemente nesse quarto e vem de tudo que me lembra você. Livros, perfume, pertences que talvez você nem lembre mais que existam exatamente porque abandonou tudo por aqui. É a nossa história exalando esse cheiro e me fazendo lembrar de você mais uma vez. É a nossa história que martela e me enche de dúvidas, mas só não me faz desistir de uma decisão.

A gente custa a tomar decisões nessa vida e eu demorei, mas tomei a minha. Nunca imaginei que nosso fim seria assim, mas eu estou certa dele. Estou certa de que é assim que tem que ser, porque afinal tudo passa, não é?! Lembro de quando me prometeu que ficaria ao meu lado enquanto estivesse vivo. Lembro da vontade que tínhamos de comprar um cachorro, uma casa e ir embora daqui.

Hoje eu só queria que essa lágrima não escorresse no meu olho. Mas sei que não está mais aqui para secá-la. Hoje eu só queria perceber como eu estava errada, mas a vida dá um tapa na cara da gente e mostra que não. Que a realidade é dura assim mesmo. Que tudo nessa vida acaba. E que de fato, tudo passa.

Suas coisas estão jogadas ali em cima da cama como quem não quer ir embora. Eu estou jogada aqui, como quem também não quer, mas que precisa. Me dói deixar nossa história para trás. E às vezes eu só me pergunto por que teve que acontecer assim. Acho que nunca soube, mas parte daquele livro que eu tanto me dediquei contava nossa história. Só que um pouco mais fictício. E eu nunca imaginei que o fim doloroso descrito ali seria o nosso fim também. Parte daquela história contava nossa história. Nossos conflitos e nossas diferenças estão ali num tom de realidade que eu me surpreendo toda vez que releio. Mas acontece que assim como eu imaginei o fim da história, a gente se redirecionou para o fim também. E se um dia ele for publicado, eu não deixarei uma dedicatória para você como havia prometido. A intenção era provar o quanto nossa história seria diferente da história do casal conturbado do livro, mas não foi possível.

Amanhã era dia de você vir para cá. Eu deitaria no seu ombro, assistiríamos a um filme e eu provavelmente dormiria antes do fim. Você me contaria toda história e faria qualquer piadinha. Amanhã seria um desses dias clichês que a gente adorava, mas só que não vai acontecer. Só que não dessa vez. Só que não, nunca mais.

Pela primeira vez eu não quero ouvir nossas músicas e te sentir de longe. Eu pensei que aquela música seria a música do nosso casamento, mas não chegou nem perto disso. Pela primeira vez eu tenho raiva do cantor que embalou toda nossa história e que me faz arrepiar dos pés a cabeça sempre que me lembro de você. Pela primeira vez eu não queria que essas lágrimas fossem para você, mas acredite: elas são. E tenho prometido para mim mesma que serão as últimas, mas essa, assim como as outras foram, é só uma promessa que eu sei que não vou conseguir cumprir de imediato, mas acredito que será aos poucos que tudo isso vai se realizar. E sabe, feridas expostas doem, mas viram cicatrizes. Levam tempo, mas elas fecham. E como a gente sabe, cicatrizes não doem mais. Apenas nos lembram de algo que um dia nos marcou.