Outra dose de sofrimento

12 de novembro de 2011



 Levou a mão ao rosto e exclamou:

– Que luzes fortes! – Enquanto andava pela avenida. Era tudo que ela conseguia dizer diante da impiedosa saudade que lhe torturava a alma. O calafrio que percorria seu corpo e o medo se fazia tão presentes como as lembranças que lhe viam todos os dias na cabeça.

Apesar de ser noite, avenida estava clara e havia milhares de carros trafegando aquele horário – o que era comum naquela cidade.  Calmamente, ela seguiu até o outro lado até que chegasse enfim a passarela que a levaria ao maior viaduto da cidade. Com uma garrafa de vodca na mão e uma carta na outra, ela se sentia anestesiada perante toda falta de amor que lhe era imposto. Aquele se moletom precisava ser lavado assim como sua alma precisava ser limpa como nunca fora antes. Com um pouco de medo e uma dose de álcool na cabeça, ela via o maior rio da cidade e seu coração lá embaixo, enquanto os carros passavam ao seu lado.

Em passos lentos, ela chegou ao topo do viaduto e sentiu uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Juntamente com o silencio, ela se acostumara com o vazio inoportuno que a invadia deixando um rastro de sofrimento que insistia em persegui-la. Ela ajoelhou e chorou suplicando por paz. E, vendo o quanto tinha sido em vão todas aquelas lágrimas, simplesmente sentou e leu aquele papel milhares de vezes até finalmente se cansar.

Os minutos passavam e as doses de vodca eram cada vez maiores. A bebida rasgava-lhe o organismo e ela sabia que viver a juntar os míseros cacos do amor que a dilaceravam era uma função desgastante, no qual fora acostumada a viver. Emendas a parte, recomeçar daria trabalho e ela havia escolhido sofrer pacientemente até que o ciclo recomeçasse. Cedo ou tarde, agora ou nunca.

Terminou a bebida, ficou tonta de sono e tomou certas decisões. Amassou aquele pequeno pedaço de papel que estava entre seus dedos e prometeu que não choraria aquela noite. Sozinha, ela se levantou do chão e mirou a água lá embaixo. No impulso, soltou sua garrafa e esperou para que visse os pequenos pedaços de vidro, mas isso não aconteceu. Repentinamente, sentiu uma imensa vontade de voar. Não sabia ao certo se conseguiria, mas resolveu tentar. Sem pensar em nada, tirou seu moletom e largou o pequeno papel amassado no chão. Equilibrou-se no para-peito do viaduto e saltou certa de que aquela era a solução de todos os seus problemas. 

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