Um grito de socorro

15 de dezembro de 2010


Chuva. Frio. Solidão. O relógio marcava às 11 da noite. Passou o braço sobre a parede até que pudesse encontrar o apagador. Passou a mão sobre ele e acendeu a luz. Tirou a sandália, jogou a mochila sobre o chão, sentou na cadeira do computador levou sua mão ao estabilizador. A luz refletida na parede do quarto já não quer dizer mais nada a ela. As vozes, intuições e sussurros estão em silêncio hoje.  Ligou o computador e por ali permaneceu por algum tempo até que pudesse ser domada pelo sono. Ela morava sozinha e sabia que ia ser assim por um bom tempo.

Sua casa não era a mais linda, nem a mais organizada. Mas era ali que ela sentia bem. As fotos na parede revelavam uma ignorante felicidade. Para ela se tornaram meros momentos superficiais e forçados. O que ela viveu já não importa mais. Há tempos não sentia um abraço de um urso de pelúcia com o cheio do namorado.

Ela era aquele tipo de menina singela, que esbanjava charme por todo lugar. Não era a mais bela e nem tinha o corpo mais bonito, mas ela sabia que chamava mais atenção em qualquer lugar que passasse. A essência de seus olhos deixava transparecer uma mulher muito mais bela do que ela realmente aparentava fisicamente ser e ela lamentava o fato de permanecer assim. Por isso ela continuava sozinha, despertando as pessoas por onde quer que passe. Despertando a inveja alheia e os desejos mais proibidos. Os últimos acontecimentos a fizeram ver outro lado do mundo, um lado que ela não gostaria de ter se quer escutado falar.

Ela resolve se deitar e se encolhe bem no canto da cama. Passara dias tentando ocupar-se emocionalmente e em vão. Seus olhos reviram em busca de uma resposta. A voz que ela espera ainda não apareceu e a solução que ela precisa ainda não foi decifrada. O aperto que ela sente no coração está aumentando, sua cabeça está pesada e sua voz já não é capaz de pedir socorro.
Uma lágrima escorre de seu olho esquerdo. Agora ela é capaz de sentir o gosto amargo de suas lembranças e de suas experiências errantes.

Uma fisgada no coração, e a vontade de chorar é incontrolável. As lembranças caem à tona. Seus momentos se tornam eternos e o arrependimento é quase que inevitável.
O nó na garganta se faz presente e ela se vira na cama. O ursinho de pelúcia largado em cima da escrivaninha já não tem tanta graça assim.

Por um instante ela fecha o olho e o grito de socorro sai, como um pedido desesperado de ajuda. Os olhos visivelmente inchados são perceptíveis na tela do computador e o impulso nervoso se solta.
Um pulo da cama e um descuido: acabara de quebrar sua única lembrança de suas últimas férias. Ah, suas férias. É tudo que ela queria de volta, mas agora seu último presente acabara destruído.

No fundo, ela até sabia, mas ela não queria entender que ela era mais uma. Mais uma que estava crescendo e que tinha que aprender algumas lições da vida. Mais uma que o mundo insistia em torturar enquanto ela, ingenuamente, se perguntava por quê.

3 comentários:

  1. Quando eu li no twitter "textinho", imaginei 10 linhas. Chego aqui e tem um livro! ~exagero. Olha, essa vontade de escrever já aparece batendo na sua porta e pedindo pra ficar, você vai ver. E o "textinho" está muito lindo, parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Textos bem legais, Dreisse. Adorei seu layout, muito fofo.

    ResponderExcluir
  3. Fiquei angustiada com a própria angústia da moça. Desejo que ela esqueça o que passou e que vá escrever outros capítulos mais bonitos.

    Beijo.

    ResponderExcluir

Obrigada!