Pleno desespero

12 de julho de 2010


Era uma manhã de sábado, em pleno inverno e ela sabia que nada estava bem. Tivera uma noite longa e confusa, de diversos sonhos estranhos e diversos sustos que a levavam a acordar e esperar o sono voltar para que pudesse dormir.

De certa forma, ela ainda estava assustada. Seu quarto estava escuro, mas ela podia ouvir vozes vindas da varanda. Provavelmente estavam com visitas, provavelmente parentes que ela não fazia a menor questão de ver.

Sua cabeça estava confusa e seus estomago embrulhava, e ela sabia que não era de fome. Queria simplesmente apagar o dia anterior da memória e esquecer como a verdade doía. Queria esquecer as palavras ditas no dia anterior, fazer suas malas e partir em direção a uma vida nova. Ela sabe que a verdade por mais forte que fosse, era melhor que a mentira reconfortante. Mas ela não queria isso, ela preferiria a dúvida do talvez. Não queria ter certeza de nada, apenas de que nada daquilo estava acontecendo com ela.

Ainda um pouco tonta ela sentou na cama. Seu celular estava no chão e ela percebeu que ainda eram 9 horas e que havia algumas chamadas não atendidas. Ela se lembrava apenas do momento de raiva, que pegou seu cardigã e saiu e agora ela estava em casa, confusa e muito mal. A noite anterior estava apagada da memória, mas ela queria esquecer as verdades que lhe foram ditas e o sentimento que a matava.

Resolveu se levantar e olhou para o porta-retrato a sua frente. Fotos de sua festa a 15 anos atrás. Todos aparentemente felizes e realizados. Mas, tudo muda e tudo mudou. Nesse momento, ela sentiu seus olhos se encherem de lágrimas e voltou a deitar na cama. Ela realmente não queria acreditar, mas ela sabia que teria que continuar. Ela era mais forte do que aparentava. Ali deitada, ela abraçou seu mais recente presente: um urso que fora presente de seu melhor amigo. Ah! Como ela precisava de um abraço agora. De alguém pra sentar ali do seu lado e a abraçar até ela sentir o mundo parar de girar.

Ela se levantou e abriu a porta do seu quarto e sentiu o ar gelado que a esperava fora de seu mundo. Sua casa estava um pouco bagunçada e ainda havia vozes na varanda. Ela se levantou e foi até o banheiro. Trancou-se lá dentro e lavou o rosto, com tanta força como se quisesse apagar aquele semblante triste e preocupado que ela carregava. Sabia que teria um dia longo pela frente. Seu delineador estava borrado e sua blusa tinha cheiro de bar. Tomou alguns comprimidos que estavam no armário do banheiro, alegando que estes a fariam esquecer de tudo. Abriu a porta, desceu as escadas e foi até a cozinha, uma leve olhada na varanda e, ela percebe que seus tios estavam aí. Aquele primo, que ela já teve uma leve atração também estava. Gritou por sua mãe. Gritou por 1, 2, 3 vezes. Sua cabeça ainda estava embaralhada e ela via tudo embaçado. Tomou um enorme copo de água e comeu meio pãozinho que estava sobre o balcão da cozinha.

Sua mãe apareceu na porta e lhe perguntou por que a tiveram que trazê-la na noite anterior. Podia parecer estranho, mas ela não estava disposta a falar com sua mãe. Simplesmente a olhou no olho e foi em direção as escadas. Sua mãe lhe tornou a perguntar e ainda disse que eles tinham visita. Ela não se importava. Ninguém mais se importava no final de tudo. Tudo estava destruído.

Ela retornou ao seu quarto, fechou a porta, ligou sua música favorita e deixou que a melodia a fizesse chorar. Eram tantas coisas pelo qual chorava que seria injusto culpar somente uma por suas lágrimas. Resolveu colocar a culpa na melodia dramática e sólida que a música levava consigo. Não sentia seus pés, não sentia seu estômago e muito menos seu coração. A dor física e emocional era tanta que seu próprio corpo a anestesiou.

Ela não queria sentir nada, mas sua cabeça ainda girava e seu estômago começava a embrulhar. Sentada no canto de seu quarto, ela abaixou a cabeça e chorou. Chorou até ser vencida pelo cansaço e voltar a dormir, devido a efeitos de remédio e dor. Dormiu ali mesmo, em cima de seu carpete velho e sujo. Adormeceu como uma criança que precisa descansar, mas no fundo ela sabia que já era uma adolescente que o mundo insistia tanto em maltratar. Ela era mais forte do que aparentava e mesmo que não parecesse, tudo voltaria a ficar bem.

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